Linderhof

Linderhof #1

1 2

Sofia Leitão, Linderhof #1

Fotografia: Cortesia MCO Arte Contemporânea

Acrílico sobre tela
100×200cm

Revisitar a maneira como a História da Arte representou qualidades específicas, como a nobreza, o poder, a beleza e o luxo tem sido uma constante no meu trabalho. Os elementos simbólicos destas qualidades aparecem explorados através de uma selecção de imagens provenientes de fontes diversas, como o cinema, fotografia, ou outras fontes artísticas e literárias que representam particularidades que se associam com os dias de glória do passado aristocrático europeu.
No meu trabalho, a consciência histórica da arte, parte do princípio que os elementos que conferem estes sentidos às obras eram construídos como se de uma cenografia se tratasse pelos aristocratas e artistas da corte. É neste contexto que se inserem as obras pertencentes à colecção. Foram concebidas como um conjunto de três pinturas comissariadas para uma exposição cujo tema era A casa.
Linderhof foi um dos vários palácios que Ludwig II da Baviera mandou construir, inspirados, ao mesmo tempo, nas óperas de Wagner e no seu ídolo, Luís XIV. Este foi o único palácio que foi concluído e habitado, ainda que muito brevemente.
O interesse por esta personagem, Ludwig II, deve-se ao facto de este reunir todas as manifestações do esteticismo tardo romântico – da loucura, à identificação entre a arte e a vida, do culto da noite e da morte, ao mito aristocrático.
O seu ideal de monarca era Luís XVI, homenageado de forma obsessiva na decoração deste palácio que imita Versalhes, numa interpretação descontextualizada do papel de soberano/mecenas, transformando o estado ético em estado estético.
Linderhof é um culto formal anacrónico, uma cenografia habitada, onde se exalta o poder aristocrático de uma forma abstracta, através de características meramente formais relacionadas com a linguagem decadente, como um simulacro que se afasta da realidade.
Concebido como um cenário de uma ópera, onde toda a atenção é dada ao invólucro, Linderhof representa o poder transformado numa caricatura paradoxal, como uma armadura de parada, ao mesmo tempo que encarna a aspiração ilimitada e anárquica do absoluto, que é mais um motivo caro das derivas tardo românticas.
Estas pinturas foram criadas a partir de film stills, do filme Ludwig II de Luchino Visconti (um testemunho do seu próprio esteticismo) sobre esta figura mítica do séc. XIX. O conjunto completo é um contínuo sequencial. Primeiro, uma carruagem que se aproxima de uma propriedade, indicada pela fonte majestosa, em seguida, uma vista parcial de uma fachada e, por fim, um fragmento do seu interior. A intenção é reproduzir o movimento do olhar, numa perspectiva assumidamente cinematográfica. É ao mesmo tempo uma alusão aos lendários passeios nocturnos de Ludwig, nas imediações de Linderhof. Acima de tudo, quis que a atmosfera estivesse saturada daquela qualidade fantasmática, que as madrugadas nebulosas e frias possuem, silenciosas e paradas no tempo. Linderhof traduz esta cristalização – do tempo e da linguagem.

Sofia Leitão, 2008.04.11

Obras de Sofia Leitão

Textos