Sem título

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Jorge Pinheiro, Sem título

Fotografia: Cortesia CAMJAP da Fundação Calouste Gulbenkian

Acetato de polivinilo sobre madeira

167,5x119,5x1,5cm

As experiências que iniciei nos finais dos anos sessenta e início da década de setenta - consubstanciadas no álbum Quinze ensaios sobre um tema ou Pitágoras jogando xadrez com Marcel Duchamp (1970/74) - procuram a construção  de um discurso estruturado com recurso a elementos de uma conotação tão débil quanto possível: pontos, segmentos de recta, arcos de círculo, ou mesmo simples grafos aparentados a caligrafias. Estes dados ordenam-se sobre grelhas pré-elaboradas, "escrevem-se", simplesmente, à maneira ocidental (de cima para baixo e da esquerda para a direita) e vão surgindo, ao longo do decurso, segundo um ritmo alicerçado na Série de Fibonacci. O resultado é, à partida, e em todos os casos, completamente imprevisível; contudo, é sempre aceite como uma "verdade" que, arrogantemente, se estabelece para além de legitimações de ordem estética uma vez que radica (ou como se radicasse...) no conceito pitagórico de que o número, génese de todo o processo, é bom e belo em si mesmo e essência de todas as coisas. Isto é, como se cresse na existência do que Umberto Eco chamaria "universais semânticos" entendidos e aceites por todos os humanos. Porém, uma vez concluída a obra, toda a "verdade" se desvanece! Desse jogo, tão geneticamente sustentado nessa "verdade inquestionável do número com o qual se estabelecem as relações matemáticas que regem o cosmos", deparamo-nos, sozinhos, com a nossa liberdade, com o desconforto da ausência dos cómodos axiomas e com a instabilidade que a porta de Duchamp abriu: afinal isto é belo se eu quiser!

As shaped canvas, que realizei entre 1966 e 1970 não recusam em absoluto às suas superfícies o estatuto de espaço metafórico, como acontece com os trabalhos que gravitam em torno do Álbum. Se, nestes, elas são meros suportes de uma escrita, nas peças recortadas (como os "tubos", "Sem título" de 1969) a superfície não só assume no espaço real toda a sua materialidade, hipotética auto-significação e independência - construindo-se, por vezes, através da repetição de um elemento matricial que se "dilata" a partir de um núcleo central até gerar a Forma - mas também, em alguns casos ("Sem título" 1969 - superfície azul), surge como resultado de um processo de não com-posição: isto é, não se resolve através de algo, que se estrutura com algo mas, pelo contrário, explicita-se como um elemento isolado, diria que "um candidato a signo", quase uma primariedade no conceito de C.S. Peirce e que, ao "dobrar-se" simuladamente sobre si próprio, apenas com o espaço real, finalmente se articula e só com ele se compõe (série que João Pinharanda baptizou como "Le Pli" - João Lima Pinharanda, Jorge Pinheiro, Ed. Asa, 2002). Contudo, nestes casos, ou nas obras em que um mesmo elemento (o elemento matricial a que me referi) se repete com variações cromáticas, trata-se, frequentemente, da irónica tentativa de dar a ver uma ambígua terceira dimensão que a pregnância do todo por sua vez recusa dado que, creio, a natureza intrínseca do todo se impõe aos processos parciais, reais ou hipoteticamente perspécticos. O Álbum e as formas recortadas têm em comum o facto da emergência da totalidade ter origem num processo de crescimento orgânico fundamentado nessa "verdade" do número e da geometria. Porém, o Álbum, que aparentemente se situa no abismo para além do qual não é já pertinente inseri-lo no conceito ainda corrente de obra de arte, acaba, paradoxalmente, por sobreviver nesse universo ao assumir funções conotativas próximas da Música, quer pelo grafismo vizinho das partituras quer pelo ritmo explícito do qual ambos são, em absoluto, tributários; as shaped canvas são "apenas" o que dão a ver e tornar-se-ão signo, obviamente, se assim o convencionarmos.

Os Mapas (1976) foram criados como quem escreve poemas: longe das normas (ou contra elas) e das verdades da razão; articulam-se, sintacticamente, numa livre combinatória de morfologias oriundas das mais diversas origens. São, dialecticamente, no seu modo de ser, a antítese das shaped canvas e são-no também do Álbum no que à génese dos elementos constitutivos se refere: são antitéticos das formas recortadas pelo silêncio absoluto e pela narcísica auto-suficiência destas como igualmente o são do subtil murmúrio musical das gravuras do Álbum. Os desenhos que baptizei com o nome de Mapas organizam-se através de um conjunto de signos que não se institui, como aquelas obras, sob a tutela das regras matemáticas ou da geometria (ainda que a elas acidentalmente recorram) mas, ao inverso, semeiam topologicamente a superfície com ícones que, pela sua natureza, instauram um palrador universo de sentidos por vezes carregados de um pseudo cientifismo. Cada elemento da composição - um diagrama, um mapa, uma planta, etc., é já um sistema de signos, supostamente descontextualizados de estruturas semióticas onde, antes, desempenhavam funções desejadamente denotativas. Incorporam sempre no rigor da sua pseudo cientificidade, citações da "linguagem" utilizada no Álbum e dele partem para se assumirem como a sua antítese. Sem o Álbum, e outros trabalhos construídos com o mesmo raciocínio, não teriam nascido os Mapas; porque sendo, afinal, o seu contrário, são, à sua semelhança, uma espécie de embuste arquitectado com o rigor de uma miríade de fingimentos travestidos de verdades inequívocas.

 

 

 

Jorge Pinheiro, 2008.02.25