O retorno à manualidade do desenho e, consequentemente, a uma opção por uma condição medial “pobre” é aqui, como em muitos outros casos, apenas aparente. Os desenhos que agora podemos ver são, antes, o resultado de uma ampla manipulação tecnológica que predetermina a sua existência, isto é, a sua condição material é proporcionada primordialmente pela matriz digital que possuem.
É no interior do computador que os desenhos nascem através de um complexo conjunto de operações que envolvem a utilização de software diversificado. Desde a manipulação de perspectiva em torno das potencialidades 3d, passando pela construção da imagem em camadas diferentes (os layers) até à sua vectorização como preparação necessária para a sua passagem à tangibilidade do real. O encontro com a realidade dá-se, posteriormente, através do registo manual da grafite sobre o papel.
A complexidade processual presente contrasta largamente com a, aparente, simplicidade da sua apresentação: como desenho. Mas aí reside um dos interesses que me motivam à sua construção: a sua simplicidade medial é unicamente ilusória pois um olhar mais atento revela todos os processos que lhe são inerentes e, mesmo, a impossibilidade operativa de tal processo não ser pré-existente. Ou seja, encontramo-nos perante obras puramente digitais – em sentido figurado e, também, literal. Esta é uma constatação importante para o desenvolvimento do meu trabalho. A noção esclarecida do cerco a que estamos sujeitos por parte da codificação binária, seja nestes desenhos, como na fotografia, no vídeo ou na pintura mas, também e sobretudo, na nossa vida quotidiana. Existem formas diversas de co-existir com esta nova condição digital da vida, pela parte que me toca prefiro este relacionamento desencantado e céptico mas, contudo, interessado em potenciar possibilidades que daí advenham. Quantos aos trabalhos, eles exalam uma espécie de exterioridade perante toda a contextualização binária de onde provêem mas é essa tranquilidade que permite estar in ou out como vontade própria. Mais não seja, pelo gozo supremo de, a partir da utilização intensa da tecnologia numa espécie de mergulho deliberado no futuro, produzir as possibilidades de lhe resistir. Como nestes desenhos.