CLIP: “Partilha de Boas Práticas” – Agrupamento de Escolas de São Gonçalo

CLIP: “Partilha de Boas Práticas” – Agrupamento de Escolas de São Gonçalo

“Devem estar a questionar-se: o que faz a psicóloga no meio dos robôs? O segredo é que os robôs só funcionam de forma eficaz com apoio psicológico… aos alunos e aos
professores.

O Clube de Robótica entre tantos desafios que coloca aos alunos, resolveu também desafiar-me para integrar este projeto, devido à dificuldade dos alunos em gerir emoções e ansiedades, saber lidar com a frustração, em saber ganhar e saber perder.

Fiquei curiosa e no ano seguinte integrei o grupo.

A minha intervenção passa muito pela gestão das emoções, ajudar a lidar com a frustração, a gerir comportamentos e ansiedades e talvez o mais importante, a trabalhar o não desistir quando se erra, e a fazer do erro uma etapa de aprendizagem. Mas rapidamente me apercebi, que o Clube de Robótica poderia ser também uma forma de integrar alguns alunos com mais dificuldades de integração na escola, mais tímidos, por vezes com alguns problemas de comportamento e também como forma de motivação para o sucesso escolar – ao experienciar eles percebem a importância de disciplinas como a matemática, a físico-química, o inglês.

Este acompanhamento é feito ao longo do ano, dado que a participação dos alunos neste projeto não é uma participação pontual ou estática, eles participam em atividades e projetos muito diversos, nomeadamente no concurso Ciência na Escola. A dinâmica deste concurso é muito importante para fomentar a curiosidade, incentivar a experimentação e criar as oportunidades para os alunos desenvolverem capacidades
cognitivas, emocionais, sociais que são impulsionadoras do desenvolvimento de competências essenciais nos dias de hoje, nomeadamente: o raciocínio lógico, a resolução de problemas complexos (muitas vezes a resolução de um problema detetado pelo próprio aluno), a flexibilidade cognitiva, a criatividade, o pensamento crítico, a autonomia, a concentração, a capacidade de tomada de decisão (muitas vezes em situação de pressão e ansiedade ou em situações de desafio) e o trabalho em equipa. Procuramos trabalhar a coesão do grupo, o espírtito de equipa, a cooperação – no sentido em que sozinhos podem fazer muita coisa mas, unidos podemos fazer coisas fantásticas. Dizemos-lhes muitas vezes que somos uma só equipa, dividida em grupos mais pequenos, para que possamos ser mais assertivos e eficazes, e isso tem sido uma conquista muito grande – a entreajuda entre eles é fantástica, existe muita entreajuda entre os alunos mais velhos e mais novos. Normalmente procuramos que os grupos sejam constituídos por alunos com conhecimentos diferentes, um sabe mais de eletrónica, outro prefere construir ou programar e como todos têm o mesmo objetivo, entrajudam-se e ao mesmo tempo crescem enquanto pessoas, desenvolvendo as suas capacidades em diferentes áreas.

Nas diversas atividades em que alunos participam ao longo do ano procuramos que eles se envolvam no processo desde a ideia inicial – do planeamento, à pesquisa, à partilha de conhecimento.

A elaboração de projetos, como por exemplo os projetos do Concurso Ciência na Escola, são altamente motivadores: numa primeira fase, há uma de chuva de ideias, surgindo muitas vezes as ideias iniciais quando ainda estão a terminar o projeto do ano anterior. Os alunos também já estão muitos despertos para as necessidades que vão surgindo à sua volta e isso faz com os mais novos no grupo acabem por ir atrás e juntos tentam encontrar a melhor forma de viabilizar e concretizar o projeto. Na fase seguinte o contato com os profissionais abre-lhes um mundo com realidades muito diferentes, por exemplo no projeto do ano anterior, a visita ao Hospital D. Estefânia, ao Hospital de Alcoitão… E aqui também é preciso um trabalho de preparação para o que vão encontrar, para a forma como vão abordar as questões ou fazer a experimentação. Muitas vezes nestes contatos diretos, os próprios profissionais lançam desafios que nos ajudam a completar e enriquecer a ideia inicial do projeto, por exemplo no projeto “O Mundo na Ponta do Dedo – 2015”, inicialmente só tínhamos os sensores queixo e testa e foram os terapeutas que nos sugeriram o uso de joystick, para responder também a doentes que têm alguma mobilidade nos braços.

A testagem e concretização final são muito motivadoras e compensadoras para todos, pois devido ao trabalho direto de cada um, a vida de alguém pode ficar melhor, mais facilitada. E esta sensação de serem uteis, de terem nas suas mãos, fruto do seu trabalho, a possibilidade de melhorar o mundo de alguém, modifica-os, modifica-nos a cada um de nós… e com toda a certeza, eles vão querer ao longo da vida continuar a contribuir para o mundo melhor.

Prova disso, é o facto de nos últimos anos, ter aumentado do número de alunos que optam pelo prosseguimento de estudos por uma via científica e tecnológica, nomeadamente o ano passado, onde 54,6% dos alunos de 9º ano prosseguiram estudos por esta área. Constatámos igualmente que 80% dos alunos que participam ou já participaram nas atividades do clube, estão a frequentar cursos superiores na área das engenharias, os restantes 20% estudam na área da matemática, economia ou medicina, nunca perdendo, no entanto, a robótica como linha orientadora.

As sementes que todos nós, aqui presentes, deixamos nos nossos alunos, ao estimulamos o gosto pela ciência e tecnologia, faz-nos acreditar e confiar, que um dia
o mundo vai realmente ser melhor.

Obrigada.”
Marina Freire
Psicóloga do Agrupamento de Escolas de São Gonçalo