CLIP: Ilídio Pinho sobre o centenário de Júlio Resende

CLIP: Ilídio Pinho sobre o centenário de Júlio Resende

“As artes entre as letras”, 13 de Dezembro de 2017, n.º 208, página 13 – Diretora: Nassalete Miranda

Ao criar em 24.05.2000 a Fundação Ilídio Pinho, com o objeto social “a ciência ao serviço do desenvolvimento e da humanização“, foram realizadas várias iniciativas de elevado interesse nacional, destacando-se o Projeto Anamnese, em que se investigou, reuniu e sistematizou a criação artística contemporânea portuguesa no período de 1993 a 2003.

Foi um trabalho extenso, profundo, feito em parceria com o Ministério da Cultura, envolvendo muitos especialistas, liderados por Miguel von Hafe Pérez. Este levantamento facultou também a constituição de um espólio de arte contemporânea, tornado-se o mais amplo exclusivamente de artistas portugueses.

Esse apoio direto aos artistas esteve, assim, na génse da criação da coleção de arte contemporânea, uma coleção de arte, fotografia, pintura e escultura, que totaliza cerca de 1200 peças de arte moderna e contemporânea.

Este projeto permitiu também dar apoio a jovens artistas portugueses, na sua formação além-fronteiras e na publicação das suas obras. A gigantesca obra Anamnese foi apresentada no Auditório Ilídio Pinho da Universidade Católica, em cerimónia presidida por Sua Excelência o Presidente da República, Cavaco Silva, em 17 de Outubro de 2006. Mas, além deste projeto da Fundação Ilídio Pinho, o seu fundador, Eng. Ilídio Pinho, nutriu uma crescente paixão pelas artes plásticas, numa convivência cultural com os artistas nos seus ateliers, em galerias e museus, desenvolvendo um amplo conhecimento da arte em Portugal e no estrangeiro.

Daí resultou a aquisição gradual e progressiva de obras de arte, não como investimento para negócio, mas sim, numa admiração criativa com a qual vive em permanente descoberta. Importa aqui dizer que a vivência da arte instala na inteligência e na sensibilidade humana um sentido humanista da existência e rasga um horizonte de novas possibilidades que realizam mais profundamente a humanidade de cada ser humano.

A primazia pela arte portuguesa pautou-se pela identidade com que Ilídio Pinho se relaciona com tudo o que faz e, por isso, revê-se nas obras de arte nacionais com sentimento e espírito de compromisso pelo bem comum, concretizado nesta relação próxima, e mesmo de amizade, sempre que possível, com os autores.

Por isso a importante coleção de arte constitui-se tomando em consideração: o artista e a sua relação com o fundador da Fundação Ilídio Pinho; as qualidades humanas e artísticas do autor; a visão intemporal que Ilídio Pinho e o seu Conselho das Artes tinham sobre cada obra.

Neste contexto situa-se a relação com o mestre Júlio Resende. Com o artista nortenho Júlio Resende, Ilídio Pinho tinha uma relação muito próxima de amizade e admiração como escultor, pintor e notável ser de cultura e humanismo. Ilídio Pinho sempre reconhecu em Júlio Resende um homem bom, um pintor exímio, que correu o mundo e assimilou vertentes culturais, plurais que exprimiu uma bela síntese humana expressionista, um amante do desenho como metáfora de todo o ato criativo e a sua Fundação, lugar do desenho, é bem a expressão dessa convicção.

Da sua coleção fazem parte obras de Júlio Resende, compreendidas num grande leque temporal, que vai de 1995, com Dois Pássaros Laranja, até Mulher, de 1949, passando por muitas outras obras, tais como Pássaro e Flores, o Menino e a Peça de Artilharia, A Mulher da Ribeira, Mulher de Balança, Vila do Conde, Mulheres na Beira-Mar e Alentejanos.

Em memória de seu filho, Ilídio Pedro, Ilídio Pinho destaca a escultura única, em bronze, de São Pedro, na Igreja de São Pedro de Castelões, em Vale de Cambra, criada pelo Mestre e que traduz a importante figura deste apóstolo.